segunda-feira, 14 de março de 2016

Alfurja


Ignoro se os dias à minha volta 
Serão os mesmos que esbanjo à volta de ti… 

Adio as madrugadas 
De umbigo rente ao balcão 
No frete da convívio brejeiro
E da piaduncha aziaga p'ra coparia no bucho...

[as pieguices esvaziamo-las como bexigas
 as amarguras esvaziamo-las como betoneiras]

Só me sou a esquecer-te…
Só me sou esvaziando-me do que me és;

Aguardo-te na esquina, e à hora a que sais –
Ei-lo punhanho desferido no olho!

A noite coxeia, céu adentro, penando...
Comigo tornando a casa, embestado e piancha  –
Sou pouco mais que um carreiro de mijo
Em calçada cediça, sem rumo concreto…

Numa outra vida quiçá,
Não haja esta aflitiva distância
Que tanto nos maça 
Que tanto nos mói…

Numa outra vida quiçá,
Havemos de estar lado a lado, tristérrimos!
Urgindo outra vida –  
Outra vida apartados!


Narciso Pinto

quarta-feira, 2 de março de 2016

Ressabiados

Tem lá paciência, e cala-te um pouco! 
Esmera-te um pouco na toleima e bitaite 
Ou tento na língua –  
A cerveja morre com semelhante paleio de saco… 

Já se sabe o quanto te rafam na lavra 
E que por uma unha negra não foste de cana; 
Sem recurso a químicos, gabas-te, sem merdas… 
Uma ou outra quenga e mai’nada!

Evitas a pânria e as radiografias –  
Falas de Deus em vez de fodas! 
Entanto as horas desmaiam de susto
Perante o teu ar esbandalhado;

Passou-te ao lado, mês e meio de eleições, 
A embuchar piadunchas e telenovelas 
E cinco menstruações depois deu-te para isto: 
Despejar abismos do alguidar…

É sempre a mesma a história –  
Deixa-te de merdas, pá! 
A penúria não é um penduricalho; 
Paga a conta e ala daqui…

Infeliz por demais – quiçá – mas não quanto baste!


Narciso Pinto 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Frieiras


Maça o frio –
Do alpendre moo o tédio
Que chocalha dentro dos olhos
Confabulando…

Aguardo visitas –
Suponho-me no programa de férias
De um familiar ou amigo que reste
Afiançando-me vivo e são do cachucho…

Faz já meses que não vejo vivalma!
Faz já meses que não espio para lá do alpendre;
Espartilha-me o frio –
Hesito a cada fanhosa brisa que corre…

Em tempos, visitava-me a Lara,
Por si só lume para um giro lá fora;
A mesma a quem recitava de memória
Pessoa – já convicto de não saber ler!

A derradeira visita foi no entanto
Por meio da última página do jornal;
Pouco ou nada me recorda o resto,
Salvo o que invento para não me esquecer…

O passado ganha estrias,
De tão magríssima a memória…
É-me quase sonhada –
A certeza de ainda aqui estar!

[de regresso a casa, ao tirar as luvas,
 cuidei faltarem-me as mãos]



Narciso Pinto



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Horóscopo




 
Dias mais difíceis virão, querida!

Seja isto que te escrevo –
A roldana de estendal que te traga a mim…

Tenho evitado toda e qualquer vichyssoise
A não ser por debaixo da mesa…
E sei agora que as ideias ou se lavam à mão
Ou encolhem…

Sei a textura exacta do teu suspiro –
Frágil miado de porcelana!
Sei o quanto anseias sonhar sem quilha,
Roçares-te pornograficamente nas nuvens…

Na esquina mais humana de ti,
Sou abordado por todo o tipo de gente…
Não te dá sossego, essa corja?
Não te será permitido um laivo de solidão?

Hei-de cavar funda a cova no peito
E enterrar-te viva dentro de mim…

Dias mais difíceis virão, querida!


Narciso Pinto